Boris I, rei d'Andorra

Rei por um dia, Skossyreff para toda a vida1


Legenda : «Oorlogen, burgeroorlogen, vorsten. 'Graaf Boris van Oranje', baron van Skossyreff, wierp zich op als vorst Boris I van Andorra. Andorra, 1934».2 





Boris Mihailovich Skossyreff Mawrusow (ou Skossireff, Skóssirev, Skosyrew ou ainda Skósyrev e etc.), além de ter um daqueles teimosos nomes eslavos que me comicham a glote em consoantes, levou uma vida plena de adjectivos. Não lhe quero montar o nome e fazer desfilar-lhe grosseiramente os apelidos em voz alta, sei lá eu declamá-lo, assim resumo-o em Boris, só aqui para nós e daqui em diante. Ora, este Boris foi tão singular e improvável no percurso que tomou na vida, que a ficção chega a ruborizar por falta de criatividade, a pobre. A Boris, encontro algum paralelismo com o percurso do Repórter X3 e em Lereno do Nascimento Soares4, este aventureiro e aquele jornalista, ambos nossos, na trilha do digo-que-fiz e vindos da escola da reputação manchada de séculos de Fernão Mentes? Minto. Perdão, Mendes Pinto. Ao autor da Peregrinação5, já vieram justamente repor-lhe a história e desmontar uma data de ideias feitas que nos eram até passadas nos bancos de escola como, por exemplo, pelo dedicado trabalho de Catz6

Para os outros, como para Boris, não há qualquer hipótese de redenção. A mentira não coagula. Boris auto-estilizou-se como Conde de Orange e como Barão de Skossyreff. Como conde parece não figurar nos anais nobiliárquicos neerlandeses, sabe-se lá se por culpa dos próprios, enfim; como barão dou-lhe algum benefício, pode até ter alguma legitimidade na sua ascendência aristocrática lituana ou russa. De qualquer forma, seja como conde ou barão daqui ou de além-terra, o que aqui interessa é Boris ter sido rei de Andorra, assim mesmo, em caixa baixa, durante parte de 1934, de 8 a 21 de Julho desse ano, como Borís I. 

Convém explicar que Andorra é um co-principado7, caso singular nos Pirinéus e no Mundo, numa diarquia partilha entre o Bispo de Urgell, na vizinha Catalunha, e o chefe de estado francês. Estes co-príncipes delegam o poder executivo no Governo e no Conselho Geral de Andorra. Qualquer estranheza perante as circunstâncias desta peculiaridade política é desvanecido com a leitura histórica de como despontou e aconteceu Andorra, e de como escapou incólume por entre as pernas da história para nos chegar independente. Em 1934, estimo que o Principado teria na ordem dos 4500 a 5000 habitantes, já que se sabe que somava 5500 cidadãos em 1948. Actualmente terá perto de 90 mil andorranos, um quinto dos quais portugueses. Ou seja, em 1934 Andorra era como um quintal, o caso Boris devia ser por todos conhecido, talvez até todos o conhecessem pessoalmente. O sítio era uma noz. E terá mesmo Boris governado como rei, nem que por um punhado de dias? Desenrolemos.

Boris chegara a Andorra em 1932 e regressou no início de 1934. Instalou-se em Santa Coloma e procurou aproximar-se de membros do Conselho Geral. Apresentou um programa de abertura económica, propôs representar o país junto da Sociedade das Nações e tentou convencer os andorranos de que poderia atrair capitais, bancos, hotéis, estradas e turistas. O Conselho não aceitou a representação internacional e, em Maio, os delegados dos dois co-príncipes ordenaram-lhe que abandonasse o território. Boris não foi longe. Instalou-se no Hotel Mundial, em La Seu d’Urgell, já do lado espanhol da fronteira, e continuou a agir como se a expulsão fosse apenas um contratempo administrativo, já que recebia jornalistas, enviava comunicados, preparava documentos e falava em nome de Andorra sem poder entrar no país. Foi neste hotel que se proclamou Boris I, Príncipe Soberano e Supremo de Andorra e Defensor da Fé. Mandou divulgar uma constituição, publicou decretos, declarou dissolvido o Conselho Geral, anunciou eleições e chegou a declarar guerra ao bispo de Urgell, que residia na mesma cidade.

A história costuma acrescentar que o Conselho Geral aprovou a monarquia em duas votações, a segunda por vinte e três votos contra um. O único opositor teria seguido a cavalo até ao paço episcopal para avisar o bispo. Teria sido formado um governo provisório, escolhida uma bandeira e aceite a constituição de Boris. A documentação conhecida não permite contar tudo isto com semelhante segurança. É provável que Boris tenha encontrado apoio entre alguns conselheiros descontentes com o funcionamento do co-principado e interessados numa modernização económica. Não é possível, porém, afirmar que tenha sido formalmente escolhido como rei, que tenha governado o território ou que o Conselho Geral lhe tenha entregado poderes efectivos. Uma parte considerável do reinado nasceu nos comunicados do próprio Boris e nas notícias que esses comunicados produziram. O reino na sua cabeça. Compreendeu, ainda assim, algumas das dificuldades de Andorra. O país tinha poucos habitantes, recursos limitados e uma economia que já não conseguia impedir a saída dos mais jovens. Boris propunha um regime fiscal favorável, investimento estrangeiro, bancos, hotéis, melhores comunicações, escolas, telefones, turismo e desportos de Inverno. Queria transformar o principado num centro comercial e turístico dos Pirenéus. Não há prova de que dispusesse do dinheiro, das relações diplomáticas ou dos investidores que anunciava. O plano dependia, antes de tudo, que acreditassem nele. Décadas mais tarde, Andorra viria a desenvolver-se através do comércio, do turismo, da fiscalidade e da neve. Boris não criou esse futuro, nem é possível saber até que ponto o antecipou por cálculo ou pelo acaso, limitou-se a apresentá-lo como se já estivesse ali ao alcance. Talvez seja isso que impede que o caso se reduza a uma simples burla, já que Boris - o Boris I no seu ideário - inventou títulos, exagerou relações e fabricou uma autoridade que nunca chegou a possuir. Ao mesmo tempo, percebeu que uma proposta podia ter mais força do que qualquer genealogia. O reino não existia, o rei não existiu, a necessidade de mudança, essa, era bem real.

Qual a atitude francesa quanto a esta - não há falta de palavras para tal - usurpação? E os seus supostos súbditos, como reagiram? Deixo a pairar umas quantas perguntas a que não consegui responder durante as minhas pesquisas. Como é que Boris I é retratado e comentado no anedotário andorrano? É comentado nas escolas por lá como uma curiosidade ou um devaneio? Como se processou a sua estadia em Portugal cerca de 1934-35, por onde passou e onde esteve, terá contactado com alguém oficial ou oficiosamente?

__ __ __ __ 

notas

1. O título é emprestado do livro «Boris I, rei d'Andorra» de Antoni Morell i Mora, 1984, e o subtítulo refere-se ao álbum «King for a Day... Fool for a Lifetime» dos Faith No More, 1995;
2. Do neerlandês: «Guerra, guerras civis, geadas. 'Conde Boris de Orange', Barão de Skossyreff, elevou-se pessoalmente a Boris I de Andorra. Andorra, 1934.» Da revista neerlandesa Het Leven, Spaarnestad Photo, daqui;
3. Reinaldo Ferreira, um texto é devido. Uma biografia?;
4. O meu primeiro contacto foi na Visão História nº21, de Setembro de 2013, no texto «O Espião de Hitler», por Ricardo Silva;
5. Título original da obra: «Peregrinaçam de Fernam Mendez Pinto em que da conta de muytas e muyto estranhas cousas que vio & ouvio no reyno da China, no da Tartaria , no do Sornau, que vulgarmente se chama Sião, no do Calaminhan, no de Pegù, no de Martavão, & em outros muytos reynos & senhorios das partes Orientais, de que nestas nossas do Occidente ha muyto pouca ou nenhu[m]a noticia. E tambem da conta de muytos casos particulares que acontecerão assi a elle como a outras pessoas... / escrita pelo mesmo Fernão Mendez Pinto. - Em Lisboa : por Pedro Crasbeeck : a custa de Belchior de Faria Cavaleyro da casa del Rey nosso Senhor, & seu Livreyro, 1614», cópia na Biblioteca Nacional;
6. Rebecca D. Catz da Universidade da Califórnia (por vezes grafada Rebeca e Katz), nos seus «A Sátira Social de Fernão Mendes Pinto», 1978, «Cartas de Fernão Mendes Pinto e outros Documentos», 1983 e «The Travels of Mendes Pinto», 1989;
7. Pelo seu carácter de excepcionalidade, não encontrei grafia base para o escrever. Reportei-me ao definido pré-AO90 para, por exemplo, co-fundador;
8. Ver também a Constituição Andorrana de Boris I, aqui em catalão e em português.
__ __ __ __ 

A. Publicado a 23 Ago 2013 

B. Ampliado e revisto a 25 Out 2013
C. Finalizado a 5 Ago 2014