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| Legenda : «Oorlogen, burgeroorlogen, vorsten. 'Graaf Boris van Oranje', baron van Skossyreff, wierp zich op als vorst Boris I van Andorra. Andorra, 1934».2 |
Para os outros, como para Boris, não há qualquer hipótese de redenção. A mentira não coagula. Boris auto-estilizou-se como Conde de Orange e como Barão de Skossyreff. Como conde parece não figurar nos anais nobiliárquicos neerlandeses, sabe-se lá se por culpa dos próprios, enfim; como barão dou-lhe algum benefício, pode até ter alguma legitimidade na sua ascendência aristocrática lituana ou russa. De qualquer forma, seja como conde ou barão daqui ou de além-terra, o que aqui interessa é Boris ter sido rei de Andorra, assim mesmo, em caixa baixa, durante parte de 1934, de 8 a 21 de Julho desse ano, como Borís I.
Boris chegara a Andorra em 1932 e regressou no início de 1934. Instalou-se em Santa Coloma e procurou aproximar-se de membros do Conselho Geral. Apresentou um programa de abertura económica, propôs representar o país junto da Sociedade das Nações e tentou convencer os andorranos de que poderia atrair capitais, bancos, hotéis, estradas e turistas. O Conselho não aceitou a representação internacional e, em Maio, os delegados dos dois co-príncipes ordenaram-lhe que abandonasse o território. Boris não foi longe. Instalou-se no Hotel Mundial, em La Seu d’Urgell, já do lado espanhol da fronteira, e continuou a agir como se a expulsão fosse apenas um contratempo administrativo, já que recebia jornalistas, enviava comunicados, preparava documentos e falava em nome de Andorra sem poder entrar no país. Foi neste hotel que se proclamou Boris I, Príncipe Soberano e Supremo de Andorra e Defensor da Fé. Mandou divulgar uma constituição, publicou decretos, declarou dissolvido o Conselho Geral, anunciou eleições e chegou a declarar guerra ao bispo de Urgell, que residia na mesma cidade.
A história costuma acrescentar que o Conselho Geral aprovou a monarquia em duas votações, a segunda por vinte e três votos contra um. O único opositor teria seguido a cavalo até ao paço episcopal para avisar o bispo. Teria sido formado um governo provisório, escolhida uma bandeira e aceite a constituição de Boris. A documentação conhecida não permite contar tudo isto com semelhante segurança. É provável que Boris tenha encontrado apoio entre alguns conselheiros descontentes com o funcionamento do co-principado e interessados numa modernização económica. Não é possível, porém, afirmar que tenha sido formalmente escolhido como rei, que tenha governado o território ou que o Conselho Geral lhe tenha entregado poderes efectivos. Uma parte considerável do reinado nasceu nos comunicados do próprio Boris e nas notícias que esses comunicados produziram. O reino na sua cabeça. Compreendeu, ainda assim, algumas das dificuldades de Andorra. O país tinha poucos habitantes, recursos limitados e uma economia que já não conseguia impedir a saída dos mais jovens. Boris propunha um regime fiscal favorável, investimento estrangeiro, bancos, hotéis, melhores comunicações, escolas, telefones, turismo e desportos de Inverno. Queria transformar o principado num centro comercial e turístico dos Pirenéus. Não há prova de que dispusesse do dinheiro, das relações diplomáticas ou dos investidores que anunciava. O plano dependia, antes de tudo, que acreditassem nele. Décadas mais tarde, Andorra viria a desenvolver-se através do comércio, do turismo, da fiscalidade e da neve. Boris não criou esse futuro, nem é possível saber até que ponto o antecipou por cálculo ou pelo acaso, limitou-se a apresentá-lo como se já estivesse ali ao alcance. Talvez seja isso que impede que o caso se reduza a uma simples burla, já que Boris - o Boris I no seu ideário - inventou títulos, exagerou relações e fabricou uma autoridade que nunca chegou a possuir. Ao mesmo tempo, percebeu que uma proposta podia ter mais força do que qualquer genealogia. O reino não existia, o rei não existiu, a necessidade de mudança, essa, era bem real.
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notas
1. O título é emprestado do livro «Boris I, rei d'Andorra» de Antoni Morell i Mora, 1984, e o subtítulo refere-se ao álbum «King for a Day... Fool for a Lifetime» dos Faith No More, 1995;
2. Do neerlandês: «Guerra, guerras civis, geadas. 'Conde Boris de Orange', Barão de Skossyreff, elevou-se pessoalmente a Boris I de Andorra. Andorra, 1934.» Da revista neerlandesa Het Leven, Spaarnestad Photo, daqui;
8. Ver também a Constituição Andorrana de Boris I, aqui em catalão e em português.
A. Publicado a 23 Ago 2013
B. Ampliado e revisto a 25 Out 2013
C. Finalizado a 5 Ago 2014
